Blog criado para a disciplina de Fotografia III ( 2013.1) do curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, ministrada pela Profa. Valecia Ribeiro. O objetivo desse blog é registrar o desenvolvimento do meu processo de criação na construção de uma poética sobre o questionamento do olhar.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Fluxo-livro.

O fluxo









Fiz uma série de imagens me utilizando do vidro da janela de um carro. Dei-lhe o nome "Fluxo".
Estacionado numa rua com várias construções históricas interessantes, pretendi captar justamente o fluxo de pessoas (tal qual pretendido aqui).
A opção de fazê-lo com o as construções históricas como plano de fundo surge de um trabalho que venho realizando em paralelo. Trato das questões do urbano, especialmente em um centro histórico.
Nas fotografias em sequência, as quais transformei em um pequeno stop-motion, as pessoas transitam, indefinidas, neste espaço histórico, físico, que existe e sobrevive ao tempo. E o transitar das pessoas traz justamente a ideia de passagem, de efemeridade. O espaço apresentado como suporte, embora no presente, se mostra carregado de uma história que remonta ao passado.
E é nesse diálogo entre os tempos do tempo, entre o fluxo e a estaticidade (ou estati-cidade), onde me apoio pra trazer uma reflexão acerca deste cotidiano no qual eu também estou inserido, do qual também faço parte e atuo enquanto indivíduo.



O livro













Aqui, remonto a irrefreável necessidade de trazer algum traço da existência desse eu que se encontra no espaço físico, mas também neste espaço virtual, no qual o fluxo de informações/pessoas é intenso e contínuo. Relacionar o espaço físico, histórico, com este espaço virtual, tecnológico e cada vez mais presente, é uma forma de rever e refletir o meu papel ante a este embate: como conciliá-los? Como percebê-los? É necessário/possível dissociá-los?

A composição surgiu por acaso: sentado de costas para a janela do meu quarto, ao desligar a luz do notebook, um espelho surgiu pra mim. Ao meu lado, um pequeno dicionário. Resolvi pegar a câmera, por impulso, e tirar algumas fotografias. Uma a uma, criei uma narrativa brincando com o Facebook, o que traduziria, neste contexto, com "cara no livro". Falo do livro de ideias, do livro da vida, do livro acadêmico, das palavras inscritas e escritas neste "oráculo da contemporaneidade".

Para enfatizar a relação entre os dois mini-vídeos, pretendo trabalhá-los utilizando a dupla exposição.
Desta forma, acredito, os conceitos de trânsito e presença poderão confluir e apresentar a minha proposta de trabalho artístico.


Como me vejo? 
Eu me vejo?
Como me situo neste espaço?
Como eu me desloco neste espaço?
Estou atento a este espaço?


Obs: Há tempos venho tentando inserir versos nas fotografias, mas ainda me encontro em conflito com essa relação texto-imagem. 
Pretendo solucionar isto já nos próximos trabalhos. Também, vou fechar o quadro nas fotografias do livro.

Passagem (O que você vê? O que vê você?)













Como havia pretendido no último exercício, trago agora uma sequência de imagens com base no que venho desenvolvendo na poética do questionamento do olhar.
É justamente neste questionamento que reside, também, o meu questionamento quanto a capacidade reflexiva de determinadas superfícies, buscando ir além do clichê do espelho plano para compor minhas imagens.

A caminho da universidade, há uma marmoraria que, vez ou outra, mantém em sua porta uma placa de mármore negro com 2,5m de altura por 3m de largura, aproximadamente. Nesta placa, coberta por uma camada de poeira, vi o reflexo dos transeuntes e minha própria imagem ao passar. Naquele momento, saquei a câmera da mochila, fiz alguns ajustes e tirei algumas fotos. O efeito resultante foi o de uma suposta manipulação fotográfica, como se eu dispusesse textura sobre a foto original.

O desafio, no entanto, era inserir-me nestas fotografias. Sozinho e sem um tripé, posicionei-me segurando a câmera com a mão direita. Deste modo, pude fotografar num ângulo onde meu corpo poderia aparecer no quadro sem que a câmera também se fizesse presente.

Com esta sequência, há o desejo de retratar o fluxo de pessoas e minha inserção neste cenário urbano. Posiciono-me entrando em cena da direita para a esquerda, indicando movimento.
O clímax da sequência se dá quando o eu inserido na imagem se percebe refletido e observado, resolvendo sair de cena e "voltar" ao que seria o espaço não compreendido naquela imagem.

A série, portanto, além de tratar da passagem de pessoas e fazer uma alusão também à passagem do tempo e da vida, suscita um questionamento acerca daquilo que nos observa. Ao se deparar com o reflexo, abandona-se a condição de observador e adota a condição de observado.
Importante salientar que, como não se trata de um espelho plano, a nitidez da imagem refletida é substituída pela textura indefinida, pela sensação de matéria dissipada e diluída.
A isso, devo o meu interesse em retratar um plano metafísico, fluido, apresentando paradoxalmente a relação do efêmero/constante, num embate entre o temporal/atemporal, entre o espiritual/material.

Por distorcerem e questionarem a perspectiva e o olhar, as fotografias produzidas até então trabalham com um conceito de anamorfose, tal qual elucida Arlindo Cruz, em "A Quarta Dimensão da Imagem":

"O conceito de anamorfose (...) teria sido introduzido no século XVII
para designar  um procedimento que já começara, todavia, a ser prati-
cado no século anterior e que consiste em relativizar ou 'perverter' os
cânones mais rígidos da perspectiva geométrica do Renascentismo."



Por ora, é isso.
Trarei meus primeiros resultados em vídeo na próxima publicação.
Muita luz. E cliques! 

Após a chuva...

A chuva é, talvez, minha maior aliada neste processo de criação. 
O clima baiano nesta região tem favorecido bastante a elaboração de novas composições. 
Estive, durante o período de 21 a 28 de Julho, no Encontro Nacional de Estudantes de Design, o NDesign, sediado em Salvador.
Choveu bastante durante este período, não há como não citar. 
A produção fotográfica deveria continuar e, com a câmera na mão, caminhando no alojamento, vi várias poças d'água formadas e não podia ignorá-las. Neste dia, no entanto, não pretendia fotografar para o blog, mas foi inevitável. 

Despreocupado, avalio algumas das poças e vejo a possibilidade de captar algo. 
A priori, a ideia era captar um fluxo de pessoas indefinidas pelo reflexo. O tempo era curto pois eu tinha que seguir para as atividades do evento. 

A seguir, algumas imagens selecionadas para o laboratório de imagens em aula: 





Na terceira imagem, posicionei-me tal qual a escultura "O Pensador", de Rodin, sem um objetivo maior para a imagem. Não era minha proposta suscitar algo de especial com ela, mas acabei gostando da composição. Solicitei a uma colega que tirasse a foto seguindo exatamente o enquadramento que julguei ser interessante. Nota-se, nas três imagens, minha predileção pela regra dos terços.

É em outro momento, no entanto, que o trabalho se estrutura dentro de um conceito específico. 
Observem as imagens a seguir:







Mais uma vez, em um "acaso planejado", observei a poça d'água e vi a cadeira ali, um lugar não ocupado, um "não-lugar" onde a presença não se fazia presente. Pedi que minha namorada tirasse a segunda imagem, na qual me encontro sentado.
Surge, então, a minha relação com a presença nas fotografias. De alguma forma, sentira-me inquieto em não me fazer presente no quadro. Talvez por isso eu tenha me posicionado como "O Pensador", como nas primeiras imagens.

A cadeira vazia surge, no reflexo, como uma reflexão acerca de um espaço, de um lugar, aqui tomado como algo a ser ocupado, presenciado. Destaco e isolo somente a cadeira, centrando-a no quadro, com o intuito de torná-la universal, de se tornar um lugar que não é exclusivamente meu.
Quando me posiciono na imagem, a intenção não é retratar o Kelvin, mas o ser, o indivíduo, que pode ser qualquer um.

Para a aula seguinte, a professora recomendou que eu me centrasse na criação de imagens em sequência. Trarei os resultados em breve.
Até a próxima.

Muita luz! E cliques!

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O reflexo

"Penso, logo reflito", 2013.

Esta imagem me instiga de alguma forma. Particularmente, gosto da leveza e serenidade da água, a qual se apresentou como um legítimo espelho emoldurado pelas pedras. Instiga-me mais ainda pelo acaso, pelo modo como captei este momento ao qual dei o título de Penso, logo reflito, uma analogia à célebre frase do filósofo francês René Descartes (Cogito, ergo sum - Penso, logo existo).

Sentado numa calçada, olhando para além do horizonte, o homem se mostra pensativo, contemplando o céu que, embora coberto de nuvens condensadas, apresentava uma rajada de luz cálida de um fim de tarde após a chuva. Passando pelas ruas, com a câmera na mão, tal momento vem até mim naturalmente. Avistei a imagem. Não falo da imagem natural, apresentada diante dos meus olhos. Falo da imagem que se formou diante dos meus olhos. Sobre o espelho d'água formado, o reflexo da figura humana atrelado à reflexão, me fizeram instintivamente pegar a câmera e apontar para esta poça d'água, num enquadramento que colocasse a cabeça do motivo retratado em um ponto áureo.
Para entender melhor, veja a seguir:



Desta forma, concentrando o personagem no primeiro plano, deixando os dois terços superiores livres, pude contemplar a sensação de pensamento, de reflexão. O personagem observa além do horizonte, portanto a ênfase no céu mesclado de pedras e nuvens.

O curioso foi (e é!) a reação inicial de algumas pessoas. Alguns acreditaram se tratar de uma montagem. Outros sequer entenderam como foi concebida.
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A professora Valécia recomendou que eu elaborasse imagens em sequência, criando uma narrativa, e que eu levasse novas imagens na aula seguinte.
Em breve, trarei novos resultados e os desdobramentos desse novo desafio.

Muita luz! E cliques!

(re)Início, reflexos, janela da alma

Inicio, mais uma vez e sempre, uma jornada interessante na Fotografia.
O semestre se iniciou há algum tempo e, confesso, chego um tanto tardiamente aos versos discorridos sobre o meu processo de criação no decorrer da disciplina Fotografia III.
Aqui, seguindo uma poética do questionamento do olhar, retomo o meu trabalho me debruçando sobre os reflexos.

Ciente de que se trata de uma temática bastante explorada por muitos fotógrafos, não busco nos reflexos a necessidade irrefreável de me fazer original ao abordar este tema em minhas fotografias. Parto do interesse em desbravar o poder do reflexo e de superfícies reflexivas e como isso pode ser apresentado, e entender o que isso pode representar metaforicamente numa composição fotográfica.

Para tanto, é fundamental redirecionar, treinar, questionar, focar (ou desfocar) o olhar, o qual, já há algum tempo, se apresentada dotado de subjetividade e cautela.
Dizem que os olhos são a janela da alma. Assim sendo, a essência do ser se expressa e se reflete no olhar.

Em aula, um excelente documentário intitulado Janela da Alma é exibido, abrindo ainda mais esta janela para diversas realidades possíveis: o olhar através do desfoque, o olhar inquieto, o "não-olhar" de um cego, o qual vê através de percepções sensoriais além da visão...
Não poderia deixar de enfatizar a importância deste filme para o desdobramento do meu trabalho.

Questionando o olhar, questiono também o meu viver, o meu modus operandi face ao meu cotidiano, ao espaço urbano, às pessoas, ao fluxo, ao efêmero e ao atemporal.

Enfim...

Muitos cliques. E muita luz!