Blog criado para a disciplina de Fotografia III ( 2013.1) do curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, ministrada pela Profa. Valecia Ribeiro. O objetivo desse blog é registrar o desenvolvimento do meu processo de criação na construção de uma poética sobre o questionamento do olhar.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Passagem (O que você vê? O que vê você?)













Como havia pretendido no último exercício, trago agora uma sequência de imagens com base no que venho desenvolvendo na poética do questionamento do olhar.
É justamente neste questionamento que reside, também, o meu questionamento quanto a capacidade reflexiva de determinadas superfícies, buscando ir além do clichê do espelho plano para compor minhas imagens.

A caminho da universidade, há uma marmoraria que, vez ou outra, mantém em sua porta uma placa de mármore negro com 2,5m de altura por 3m de largura, aproximadamente. Nesta placa, coberta por uma camada de poeira, vi o reflexo dos transeuntes e minha própria imagem ao passar. Naquele momento, saquei a câmera da mochila, fiz alguns ajustes e tirei algumas fotos. O efeito resultante foi o de uma suposta manipulação fotográfica, como se eu dispusesse textura sobre a foto original.

O desafio, no entanto, era inserir-me nestas fotografias. Sozinho e sem um tripé, posicionei-me segurando a câmera com a mão direita. Deste modo, pude fotografar num ângulo onde meu corpo poderia aparecer no quadro sem que a câmera também se fizesse presente.

Com esta sequência, há o desejo de retratar o fluxo de pessoas e minha inserção neste cenário urbano. Posiciono-me entrando em cena da direita para a esquerda, indicando movimento.
O clímax da sequência se dá quando o eu inserido na imagem se percebe refletido e observado, resolvendo sair de cena e "voltar" ao que seria o espaço não compreendido naquela imagem.

A série, portanto, além de tratar da passagem de pessoas e fazer uma alusão também à passagem do tempo e da vida, suscita um questionamento acerca daquilo que nos observa. Ao se deparar com o reflexo, abandona-se a condição de observador e adota a condição de observado.
Importante salientar que, como não se trata de um espelho plano, a nitidez da imagem refletida é substituída pela textura indefinida, pela sensação de matéria dissipada e diluída.
A isso, devo o meu interesse em retratar um plano metafísico, fluido, apresentando paradoxalmente a relação do efêmero/constante, num embate entre o temporal/atemporal, entre o espiritual/material.

Por distorcerem e questionarem a perspectiva e o olhar, as fotografias produzidas até então trabalham com um conceito de anamorfose, tal qual elucida Arlindo Cruz, em "A Quarta Dimensão da Imagem":

"O conceito de anamorfose (...) teria sido introduzido no século XVII
para designar  um procedimento que já começara, todavia, a ser prati-
cado no século anterior e que consiste em relativizar ou 'perverter' os
cânones mais rígidos da perspectiva geométrica do Renascentismo."



Por ora, é isso.
Trarei meus primeiros resultados em vídeo na próxima publicação.
Muita luz. E cliques! 

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